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}{\info{\author foobar}}
\paperw11905\paperh16837\margl1417\margr1417\margt1417\margb1417\widowctrl\hyphhotz1285\ftnbj\ftnrestart\aftnnar\revisions \sectd \endnhere 
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\pard \sl0\hyphpar0\tx0\tx720\tx1440\tx2160\tx2880\tx3600\tx4320\tx5040\tx5760\tx6480\tx7200\tx7920\tx8640\tx9360 
{\plain \lang1046 }{\plain \lang1046 \par
}{\plain \fs32\lang1046 A }{\plain \ul\fs32\lang1046 Virtual Bookstore}{\plain \fs32\lang1046  apresenta mais um grande conto de:\par
}{\plain \fs32\lang1046 \par
}\pard \qc\sl0\hyphpar0\tx0\tx720\tx1440\tx2160\tx2880\tx3600\tx4320\tx5040\tx5760\tx6480\tx7200\tx7920\tx8640\tx9360 
{\plain \fs32\lang1046 Machado de Assis}{\plain \f1\fs32\lang1046 \par
}{\plain \i\f2\fs40\lang1046 A Igreja do Diabo}{\plain \i\f3\fs40\lang1046 \par
}\pard \sl0\hyphpar0\tx0\tx720\tx1440\tx2160\tx2880\tx3600\tx4320\tx5040\tx5760\tx6480\tx7200\tx7920\tx8640\tx9360 
{\plain \lang1046 \par
}{\plain \lang1046 \par
}{\plain \b\lang1046 \tab Virtual Bookstore}{\plain \lang1046  (www.vbookstore.com.br), a verdadeira livraria virtual da Internet 
Brasileira. Texto digitalizado e passado por processo de reconhecimento \'f3ptico de caracteres 
(OCR) por Renato Lima (}{\field{\fldinst  GOTOBUTTON BM_1_ {\plain \lang1033 rlima@elogica.com.br).}}{\fldrslt }}{\plain \lang1033 \par
}{\plain \lang1046 \tab Precisamos de voc\'ea para manter esta grande Biblioteca Virtual gratuita! Se voc\'ea 
quiser ajudar, clique em \'93ajuda\'94 na p\'e1gina principal para maiores informa\'e7\'f5es.}{\field{\fldinst  GOTOBUTTON BM_3_ {\plain \lang1033 }}{\fldrslt }}{\plain \lang1033 }{\field{\fldinst  GOTOBUTTON BM_4_ {\plain \lang1033 }}{\fldrslt }}{\plain \lang1033 \par
}{\plain \lang1046 \tab Esse arquivo pode ser redistribu\'eddo livremente, }{\plain \ul\lang1046 desde que}{\plain \lang1046  mantidas as informa\'e7\'f5es 
acima.}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 A IGREJA DO DIABO                        \par
}{\plain \f4\lang1046                                                                  \par
}{\plain \f4\lang1046               CAP\'cdTULO I / DE UMA ID\'c9IA MIR\'cdFICA             \par
}{\plain \f4\lang1046                                                                  \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em  certo dia, teve a id\'e9ia de 
fundar uma igreja. Embora  os seus  lucros fossem cont\'ednuos e grandes, sentia\_se humilhado 
com o papel avulso que exercia desde s\'e9culos, sem organiza\'e7\'e3o, sem regras, sem c\'e2nones, 
sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e 
obs\'e9quios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que n\'e3o teria ele a sua igreja? Uma igreja 
do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religi\'f5es, e destru\'ed\_las de uma vez.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ V\'e1, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, brevi\'e1rio contra 
brevi\'e1rio. Terei a minha missa, com vinho e p\'e3o \'e0 farta, as minhas pr\'e9dicas, bulas, novenas e 
todo o demais aparelho eclesi\'e1stico. O meu credo ser\'e1 o n\'facleo universal dos esp\'edritos, a 
minha igreja uma tenda de Abra\'e3o. E depois, enquanto as outras religi\'f5es se combatem e se 
dividem, a minha igreja ser\'e1 \'fanica; n\'e3o acharei diante de mim, nem Maom\'e9, nem Lutero. H\'e1 
muitos modos de afirmar; h\'e1 s\'f3 um de negar tudo.                            \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabe\'e7a e estendeu os bra\'e7os, com um gesto magn\'edfico 
e varonil. Em seguida, lembrou\_se de ir ter com Deus para comunicar\_lhe a id\'e9ia, e 
desafi\'e1\_lo; levantou os olhos, acesos de \'f3dio, \'e1speros  de vingan\'e7a, e disse consigo: \_\_ Vamos, 
\'e9 tempo. E r\'e1pido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as prov\'edncias do 
abismo, arrancou da sombra  para o infinito azul.\par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 CAP\'cdTULO II / ENTRE DEUS E O DIABO\par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Deus recolhia um anci\'e3o, quando o Diabo chegou ao c\'e9u. Os serafins que 
engrinaldavam o rec\'e9m\_chegado, detiveram\_no logo, e o Diabo deixou\_se estar \'e0 entrada com 
os olhos no Senhor.              \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Que me queres tu? perguntou este. \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ N\'e3o venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo,  mas por todos os 
Faustos do s\'e9culo e dos s\'e9culos.                    \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Explica\_te.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Senhor, a explica\'e7\'e3o \'e9 f\'e1cil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom 
velho; dai\_lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas c\'edtaras e ala\'fades o recebam com 
os mais divinos coros...\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de do\'e7ura.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ N\'e3o, mas provavelmente \'e9 dos \'faltimos que vir\'e3o ter convosco. N\'e3o tarda muito que 
o c\'e9u fique semelhante a uma casa vazia, por causa do pre\'e7o, que \'e9 alto. Vou edificar uma 
hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha 
desorganiza\'e7\'e3o, do meu reinado casual e advent\'edcio. \'c9 tempo de obter a vit\'f3ria final e 
completa. E ent\'e3o vim dizer\_vos isto, com lealdade, para que me n\'e3o acuseis de 
dissimula\'e7\'e3o... Boa id\'e9ia, n\'e3o vos parece?                                                              \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Vieste diz\'ea\_la, n\'e3o legitim\'e1\_la, advertiu o Senhor,              \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Tendes raz\'e3o, acudiu o Diabo; mas o amor\_pr\'f3prio gosta de ouvir o aplauso dos 
mestres. Verdade \'e9 que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal 
exig\'eancia... Senhor, des\'e7o \'e0 terra; vou lan\'e7ar a minha pedra fundamental.                       \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Vai.                                                             \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Quereis que venha anunciar\_vos o remate da obra?                 \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ N\'e3o \'e9 preciso; basta que me digas desde j\'e1 por que motivo, cansado h\'e1 tanto da tua 
desorganiza\'e7\'e3o, s\'f3 agora pensaste em fundar uma igreja?\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab O Diabo sorriu com certo ar de esc\'e1rnio e triunfo. Tinha alguma id\'e9ia cruel no 
esp\'edrito, algum reparo picante no alforje da mem\'f3ria, qualquer cousa que, nesse breve 
instante da eternidade, o fazia crer superior ao pr\'f3prio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ S\'f3 agora conclu\'ed uma observa\'e7\'e3o, come\'e7ada desde alguns s\'e9culos, e \'e9 que as 
virtudes, filhas do c\'e9u, s\'e3o em grande n\'famero compar\'e1veis a rainhas, cujo manto de veludo 
rematasse em franjas de algod\'e3o. Ora, eu proponho\_me a pux\'e1\_las por essa franja, e traz\'ea\_las 
todas para minha igreja; atr\'e1s delas vir\'e3o as de seda pura...\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Velho ret\'f3rico! murmurou o Senhor.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos p\'e9s, nos templos do mundo, 
trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem\_se do mesmo p\'f3, os len\'e7os cheiram aos 
mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devo\'e7\'e3o entre o livro santo e o bigode 
do pecado. Vede o ardor, \_\_ a indiferen\'e7a, ao menos, \_\_ com que esse cavalheiro p\'f5e em letras 
p\'fablicas os benef\'edcios que liberalmente espalha, \_\_ ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou 
quaisquer dessas mat\'e9rias necess\'e1rias \'e0 vida... Mas n\'e3o quero parecer que me detenho em 
cousas mi\'fadas; n\'e3o falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas 
prociss\'f5es, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a neg\'f3cios 
mais altos...\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram 
no Senhor um olhar de s\'faplica, Deus interrompeu o Diabo.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Tu \'e9s vulgar, que \'e9 o pior que pode acontecer a um esp\'edrito da tua esp\'e9cie, 
replicou\_lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas est\'e1 dito e redito pelos moralistas do 
mundo. \'c9 assunto gasto; e se n\'e3o tens for\'e7a, nem originalidade para renovar um assunto 
gasto, melhor \'e9 que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legi\'f5es mostram no rosto os 
sinais vivos do t\'e9dio que lhes d\'e1s. Esse mesmo anci\'e3o parece enjoado; e sabes tu o que ele 
fez?                         \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ J\'e1 vos disse que n\'e3o.           \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufr\'e1gio, ia 
salvar\_se numa t\'e1bua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam j\'e1 com a 
morte; deu\_lhes a t\'e1bua de salva\'e7\'e3o e mergulhou na eternidade. Nenhum p\'fablico: a \'e1gua e o 
c\'e9u por cima. Onde achas a\'ed a franja de algod\'e3o?\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Senhor, eu sou, como sabeis, o esp\'edrito que nega.                    \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Negas esta morte?                                                    \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, 
para um misantropo, \'e9 realmente aborrec\'ea\_los...                                                                   \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Ret\'f3rico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as 
virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!         \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera\_lhe sil\'eancio; os 
serafins, a um sinal divino, encheram o c\'e9u com as harmonias de seus c\'e2nticos. O Diabo 
sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.        \par
}{\plain \f4\lang1046                                                                          \par
}{\plain \f4\lang1046 CAP\'cdTULO III / A BOA NOVA AOS HOMENS\par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Uma vez na terra, o Diabo n\'e3o perdeu um minuto. Deu\_se pressa em enfiar a cogula 
beneditina, como h\'e1bito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordin\'e1ria, 
com uma voz que reboava nas entranhas do s\'e9culo. Ele prometia aos seus disc\'edpulos e fi\'e9is as 
del\'edcias da terra, todas as gl\'f3rias, os deleites mais \'edntimos. Confessava que era o Diabo; mas 
confessava\_o para retificar a no\'e7\'e3o que os homens tinham dele e desmentir as hist\'f3rias que a 
seu respeito contavam as velhas beatas.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Sim, sou o Diabo, repetia ele; n\'e3o o Diabo das noites sulf\'fareas, dos contos 
son\'edferos, terror das crian\'e7as, mas o Diabo verdadeiro e \'fanico, o pr\'f3prio g\'eanio da natureza, a 
que se deu aquele nome para arred\'e1\_lo do cora\'e7\'e3o dos homens. Vede\_me gentil a airoso. Sou  
o vosso verdadeiro pai. Vamos l\'e1: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei 
dele um trof\'e9u e um l\'e1baro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...        \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Era assim que falava, a princ\'edpio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, 
congregar, em suma, as multid\'f5es ao p\'e9 de si. E elas vieram; e logo que vieram, o  Diabo 
passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um esp\'edrito de nega\'e7\'e3o. 
Isso quanto \'e0 subst\'e2ncia, porque, acerca da forma, era umas vezes subtil, outras c\'ednica e 
deslavada.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substitu\'eddas por outras, que eram as 
naturais e leg\'edtimas. A soberba, a lux\'faria, a pregui\'e7a foram reabilitadas, e assim tamb\'e9m a 
avareza, que declarou n\'e3o ser mais do que a m\'e3e da economia, com a diferen\'e7a que a m\'e3e era 
robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na exist\'eancia de Homero; sem o 
furor de Aquiles, n\'e3o haveria a Il\'edada: "Musa, canta a c\'f3lera de Aquiles, filho de Peleu"... O 
mesmo disse da gula, que produziu as melhores p\'e1ginas de Rabelais, e muitos bons versos do 
Hissope; virtude t\'e3o superior, que ningu\'e9m se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas 
ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas raz\'f5es de ordem 
liter\'e1ria ou hist\'f3rica, para s\'f3 mostrar o valor intr\'ednseco daquela virtude, quem negaria que era 
muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande c\'f3pia, do que os maus 
bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, 
express\'e3o metaf\'f3rica, pela vinha do Diabo, locu\'e7\'e3o direta e verdadeira, pois n\'e3o faltaria 
nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto \'e0 inveja, pregou 
friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que 
chegava a suprir todas  as outras, e ao pr\'f3prio talento.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab As turbas corriam atr\'e1s dele entusiasmadas. O Diabo incutia\_lhes, a grandes golpes de 
eloq\'fc\'eancia, toda a nova ordem de cousas, trocando a no\'e7\'e3o delas, fazendo amar as perversas 
e detestar as s\'e3s.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Nada mais curioso, por exemplo, do que a defini\'e7\'e3o que ele dava da fraude. 
Chamava\_lhe o bra\'e7o esquerdo do homem; o bra\'e7o direito era a for\'e7a; e conclu\'eda: muitos 
homens s\'e3o canhotos, eis tudo. Ora, ele n\'e3o exigia que todos fossem canhotos; n\'e3o era 
exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que n\'e3o 
fossem nada. A demonstra\'e7\'e3o, por\'e9m, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um 
casu\'edsta do tempo chegou a confessar que era um monumento de l\'f3gica. A venalidade, disse 
o Diabo, era o exerc\'edcio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua 
casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chap\'e9u, cousas que s\'e3o tuas por uma raz\'e3o jur\'eddica e legal, 
mas que, em  todo caso, est\'e3o fora de ti, como \'e9 que n\'e3o podes vender a tua opini\'e3o, o teu 
voto, a tua palavra, a tua f\'e9, cousas que s\'e3o mais do que tuas, porque s\'e3o a tua pr\'f3pria 
consci\'eancia, isto \'e9, tu mesmo? Neg\'e1\_lo \'e9 cair no obscuro e no contradit\'f3rio. Pois n\'e3o h\'e1 
mulheres que vendem os cabelos? n\'e3o pode um homem vender uma parte do seu sangue para 
transfundi\_lo a outro homem an\'eamico? e o sangue e os cabelos, partes f\'edsicas, ter\'e3o um 
privil\'e9gio que se nega ao car\'e1ter, \'e0 por\'e7\'e3o moral do homem? Demonstrando assim o 
princ\'edpio, o Diabo n\'e3o se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuni\'e1ria; 
depois, mostrou ainda que, \'e0 vista do preconceito social, conviria dissimular o exerc\'edcio de 
um direito t\'e3o leg\'edtimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto \'e9, 
merecer duplicadamente.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Est\'e1 claro que combateu o perd\'e3o 
das inj\'farias e outras m\'e1ximas de brandura e cordialidade. N\'e3o proibiu formalmente a cal\'fania 
gratuita, mas induziu a exerc\'ea\_la mediante retribui\'e7\'e3o, ou pecuni\'e1ria, ou de outra esp\'e9cie; nos 
casos, por\'e9m, em que ela fosse uma expans\'e3o imperiosa da for\'e7a imaginativa, e nada mais, 
proibia receber nenhum sal\'e1rio, pois equivalia a fazer pagar a transpira\'e7\'e3o. Todas as formas 
de respeito foram condenadas por ele, como elementos poss\'edveis de um certo decoro social e 
pessoal; salva, todavia, a \'fanica exce\'e7\'e3o do interesse. Mas essa mesma exce\'e7\'e3o foi logo 
eliminada. pela considera\'e7\'e3o de que o interesse, convertendo o respeito em simples adula\'e7\'e3o, 
era este o sentimento aplicado e n\'e3o aquele.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade 
humana. Com efeito, o amor do pr\'f3ximo era um obst\'e1culo grave \'e0 nova institui\'e7\'e3o. Ele 
mostrou que essa regra era urna simples inven\'e7\'e3o de parasitas e negociantes insolv\'e1veis; n\'e3o 
se devia dar ao pr\'f3ximo sen\'e3o indiferen\'e7a; em alguns casos, \'f3dio ou desprezo. Chegou 
mesmo \'e0 demonstra\'e7\'e3o de que a no\'e7\'e3o de pr\'f3ximo era errada, e citava esta frase de um padre 
de N\'e1poles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo 
reg\'edmen: "Leve a breca o pr\'f3ximo! N\'e3o h\'e1 pr\'f3ximo!" A \'fanica hip\'f3tese em que ele permitia 
amar ao pr\'f3ximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa esp\'e9cie de 
amor tinha a particularidade de n\'e3o ser outra cousa mais do que o amor do indiv\'edduo a si 
mesmo. E como alguns disc\'edpulos achassem que uma tal explica\'e7\'e3o, por metaf\'edsica, escapava 
\'e0 compreens\'e3o das turbas, o Diabo recorreu a um ap\'f3logo: \_\_ Cem pessoas tomam a\'e7\'f5es de 
um banco, para as opera\'e7\'f5es comuns; mas cada acionista n\'e3o cuida realmente sen\'e3o nos seus 
dividendos: \'e9 o que acontece aos ad\'falteros. Este ap\'f3logo foi inclu\'eddo no livro da sabedoria.      
\par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046 CAP\'cdTULO IV / FRANJAS E FRANJAS\par
}{\plain \f4\lang1046 \par
}{\plain \f4\lang1046                                                                            \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab A PREVIS\'c3O do Diabo verificou\_se.  Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava 
em franja de algod\'e3o, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa \'e0s urtigas e vinham 
alistar\_se na igreja nova. Atr\'e1s foram chegando as outras, e o tempo aben\'e7oou a institui\'e7\'e3o. A 
igreja fundara\_se; a doutrina propagava\_se; n\'e3o havia uma regi\'e3o do globo que n\'e3o a 
conhecesse, uma l\'edngua que n\'e3o a traduzisse, uma ra\'e7a que n\'e3o a amasse. O Diabo al\'e7ou 
brados de triunfo.                    \par
}{\plain \f4\lang1046   Um dia. por\'e9m, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fi\'e9is, \'e0s escondidas, 
praticavam as antigas virtudes. N\'e3o as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, 
por partes, e, como digo, \'e0s ocultas. Certos glut\'f5es recolhiam\_se a comer frugalmente tr\'eas ou 
quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito cat\'f3lico; muitos avaros davam esmolas, 
\'e0 noite, ou nas ruas mal povoadas; v\'e1rios dilapidadores do er\'e1rio restitu\'edam\_lhe pequenas 
quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o cora\'e7\'e3o nas m\'e3os, mas com o 
mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam emba\'e7ando os outros.\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab A descoberta assombrou o Diabo. Meteu\_se a conhecer mais diretamente o mal, e viu 
que lavrava muito. Alguns casos eram at\'e9 incompreens\'edveis, como o de um droguista do 
Levante, que envenenara longamente uma gera\'e7\'e3o inteira, e, com o produto das drogas 
socorria os filhos das v\'edtimas. No Cairo achou um perfeito ladr\'e3o de camelos, que tapava a 
cara para ir \'e0s mesquitas. O Diabo deu com ele \'e0 entrada de uma, lan\'e7ou\_lhe em rosto o 
procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou\_o, com\par
}{\plain \f4\lang1046 efeito, \'e0 vista do Diabo e foi d\'e1\_lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Al\'e1. O 
manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordin\'e1rias, entre elas esta, que 
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores ap\'f3stolos era um calavr\'eas, var\'e3o 
de cinq\'fcenta anos, insigne falsificador de documentos, que possu\'eda uma bela casa na 
campanha romana, telas, est\'e1tuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter\_se 
na cama para n\'e3o confessar que estava s\'e3o. Pois esse homem, n\'e3o s\'f3 n\'e3o furtava ao jogo, 
como ainda dava gratifica\'e7\'f5es aos criados. Tendo angariado a amizade de um c\'f4nego, ia 
todas as semanas confessar\_se com ele, numa capela solit\'e1ria; e, conquanto n\'e3o lhe 
desvendasse nenhuma das suas a\'e7\'f5es secretas, benzia\_se duas vezes, ao ajoelhar\_se, e ao 
levantar\_se. O Diabo mal p\'f4de crer tamanha aleivosia. Mas n\'e3o havia duvidar; o caso era 
verdadeiro.                                \par
}{\plain \f4\lang1046 \tab N\'e3o se deteve um instante. O pasmo n\'e3o lhe deu tempo de refletir, comparar e 
concluir do espet\'e1culo presente alguma cousa an\'e1loga ao passado. Voou de novo ao c\'e9u, 
tr\'eamulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de t\'e3o singular fen\'f4meno. Deus ouviu\_o 
com infinita complac\'eancia; n\'e3o o interrompeu, n\'e3o o repreendeu, n\'e3o triunfou, sequer, 
daquela agonia sat\'e2nica. P\'f4s os olhos nele, e disse:\par
}{\plain \f4\lang1046 \tab \_\_ Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algod\'e3o t\'eam agora franjas de seda, 
como as de veludo tiveram franjas de algod\'e3o. Que queres tu? \'c9 a eterna contradi\'e7\'e3o 
humana.         \par
}{\plain \f4\lang1046                                                                      \par
}{\plain \f4\lang1046 \par
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